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Jogo Baleia Azul: Eu tentei jogar o game de suicídio e o resultado é surpreendente

Jogo Baleia Azul: Eu tentei jogar o game de suicídio e o resultado é surpreendente

 

Nesta terça (18), o jogo Baleia Azul pareceu estar mais perto da nossa realidade local. A Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba emitiu um alerta que deixou a população assustada: foram registradas 5 tentativas de suicídio na madrugada anterior de adolescentes entre 13 e 17 anos na capital paranaense.

O desafio, que no exterior leva o nome de “Blue Whale”, chegou nas últimas semanas em terras brasileiras e tem gerado mortes suspeitas em outros estados brasileiros.

Eu, Júlio Boll, blogueiro deste jornal, tentei jogar o game. Sobretudo, para tentar identificar o que realmente acontece e como funciona a dinâmica deste desafio. Queria testar os limites e ouvir um pouco dos motivos para tanta gente nova se oferecer para algo tão devastador. (Leia mais abaixo)

Yulia, na Russia, o primeiro caso do Blue Whale

Para quem ainda não sabe, a dinâmica é muito simples: adolescentes são convocados para grupos fechados no Facebook e no WhatsApp para participar da Baleia Azul, que consiste em cumprir 50 desafios pré-estabelecidos por curadores***, que normalmente também são adolescentes com perfis falsos nas redes sociais. Entre as tarefas, estão mutilar os braços com facas, assistir filmes de terror na madrugada e, na tarefa final, cometer suicídio.

Em fevereiro, dois casos na Rússia foram atrelados ao jogo, que muito provavelmente se originou na terra de Putin. Um deles foi o da adolescente Yulia Konstantinova, de 15 anos, que postou pistas de que estava participando do jogo e acabou com sua morte, em fevereiro. Estima-se que mais de 130 casos russos de suicídio estão atrelados ao Blue Whale. Nada foi confirmado nas últimas semanas.

Entretanto, a novidade parece ter chegado ao Brasil. Nesta semana, dois adolescentes cometeram suicídio em Minas Gerais – levando a polícia local a suspeitar de que se trata de vítimas do desafio viral. As investigações ainda não foram concluídas.

Secretaria da Saúde de Curitiba em comunicado: “Orientamos que pais e responsáveis conversem com os adolescentes e fiquem atentos a sinais de isolamento, perda de vínculo familiar e quadros de automutilação”, diz o secretário municipal

EU JOGUEI E ME SURPREENDI

Para início de conversa, é preciso um pouco de paciência para se tentar jogar o Blue Whale, caso não seja convidado. Cristina*, 16 anos, me contou que foi intimada via mensagem direta em seu Instagram, há duas semanas. É muito direto: os perfis falsos seguem o usuário e mandam o convite, já pedindo o número de WhatsApp para acertar as regras finais. Acertadamente, Cris* bloqueou o usuário. “Foi muito rápido, quando fui convidada, não achei que fosse verdade. Vários amigos meus foram convidados e é real”, garante. Ou seja, não há uma lógica: todos os adolescentes estão vulneráveis aos convites.

Muitos grupos são criados diariamente: a maioria oferece ajuda psicológica

Contudo, para quem procura participar da Baleia Azul e busca tal mutilação pode encontrar grupos fechados no próprio Facebook. Eu entrei em vários deles nas últimas semanas – e ocultei diversas informações do meu perfil fake para não dar margem de erro à minha investigação. Alguns dos grupos já possuem mais de 1,9 mil membros – outros, contudo, mais suspeitos, apenas 4 ou 5 perfis ativos. É muito amplo o alcance do game.

Ao entrar no grupo, é preciso fazer uma “caça” aos curadores. Eles não te procuram. Uma série de pessoas podem ser vistas nesse grupo como oferendas em posts como “quero jogar, como faço?” ou então “Algum curador disponível”. As respostas normalmente demoram. Alguns usuários até comentam dizendo que muitos desses administradores só ficam on-line a partir das 4h20 da madrugada, horário marcado para acontecer as mortes e a realização das tarefas diárias.

Eu me ofereci. Fiz posts. Mandei mensagem direta para diversas pessoas intituladas como administradoras. E eis o resultado surpreendente: existem jovens se passando como curadores tentando ajudar os candidatos a saírem do jogo. Tentando ouvi-los, dispostos a conversar para fazer estes adolescentes a abandonarem o desafio. Portanto, mesmo com pessoas mal intencionadas, temos outras centenas fazendo o trabalho de anjos da guarda.

Conversa com um dos “anjos”: pessoas estão ajudando umas às outras

Uma delas é a carioca Luciana*, 23. Ao fazer meu post no Blue Whale, ela mandou mensagem direta dizendo que eu era um jovem muito bonito e que não merecia o destino final horrível. Entre os perfis que ajudou, a jovem conta que são pessoas entre 12 e 25 anos, que cresceram com traumas, pai ou mãe preso ou vítimas de espancamento na própria casa. “São pessoas que só querem um pouco de atenção, falta de autocontrole. Eu sou uma pessoa cristã e quero apenas ajudar”, confidencia.

Sobre os curadores, outro perfil que me contatou – e que também forneceu ajuda psicologica – atesta que é algo de além mundo. “Eles dizem que você precisa morrer e que o poder dele é íntimo com o diabo. Não tem muita lógica”, detalha a catarinense Mariana, 18*.

Outro caso muito comum neste grupos são os falsos curadores. Um deles, o paranaense Manoel*, 17, disse no grupo do Facebook que seu número estava disponível para receber candidatos. Me ofereci. Em poucos minutos, trocamos WhatsApp e ele procurou apresentar as regras: uma vez aceitando o jogo, você não pode desistir; você não pode mandar perguntas, apenas executar as tarefas; e caso falhe em alguma etapa, sua família pode sofrer consequências.

Manoel se passa como curador para ajudar as pessoas

Depois de uma insistência em saber quais eram as “consequências”, Manoel* falou a real: negou que era curador e que estava ali para reverter esse quadro. Estava se oferecendo para ouvir estes jovens. Detalhou casos de adolescentes depressivos, que não têm os pais por perto. A verdade é que os jogos estão acontecendo.

Além disso, conversei com outras fontes. Me ofereci para ajudar. Todos estão passando por tempos difíceis: alguns reclamam da pressão do vestibular, outros da falta de diálogo com pais. Fernando*, 14, relatou que não quer mais saber de viver. Mas agradece pela ajuda. “Sei que Deus te enviou para me mandar palavras de ajuda. Vou procurar um psicólogo. A vida tem uma saída sim”, respondeu, após eu falar que existe algo maior capaz de nos ouvir e de nos fortalecer.

Após estas investigações e fontes, eu tenho uma certeza: o Blue Whale existe, está presente e precisa de monitoramento urgente de famílias e amigos. Fico triste de ver uma geração mais nova que a minha se submeter a perigos da web de uma forma tão inesperada e acredito que a mídia – e até mesmo a Netflix com “13 Reasons Why” – está correta em noticiar e alertar para esses ocorridos.

Fico feliz de ver, apesar de tudo, que existem anjos da guarda onde menos esperando. A vida continua.

Uma das pessoas agradecendo Luciana* pela ajuda

***Veja sinais de atitudes dos adolescentes que podem estar relacionadas com o jogo:

1. Mutilações na palma da mão
2. Ele assiste filmes de terror/psicodélicos com frequência
3. Mutilações nos braços – cortes grandes com desenhos de baleia ou qualquer outro animal
4. Desenhos de baleia
5. Posts em redes sociais com os dizeres “#i_am_whale” (“Eu sou uma Baleia”).
6. Sair de casa em horários estranhos – madrugada principalmente
7. Cortes nos lábios
8. Furos nas mãos com agulhas
9. Arranjar brigas
10. Evitar conversar durante muitas horas

* Os nomes desta matéria são fictícios e todas as fontes autorizaram a participação no texto.

Fonte:Gazeta do Povo

 

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